Segunda-feira, 26 de Março de 2007
Novamente os Búrios
Da AMBIO:
Caro Henrique,
Eu também estou esclarecido com as suas citações, que provam ainda menos que
as que eu apresentei, por serem mais generalistas e abstractas.
O Henrique esteve lá? Eu não estive, por isso não lhe posso dizer
pessoalmente  o que se passou. Mas mesmo que estivesse, de certeza que o
Henrique tb não ia acreditar no que eu lhe dissesse, mesmo com sentenças de
Tribunal a confirmar e outra documentação autenticada em notário, enviada ao
seu  cuidado, como já tem acontecido. Ou porque diz ter "péssima memória" ou
porque não está para ver os dossiers. É problema seu. Acredite no que
quiser. Não é dogma de fé (se o fosse ainda podia acreditar menos) e ninguém
o leva para a fogueira, nem sequer para Tribunal. Por causa disso, pelo
menos.
Mas olhe que as citações que eu fiz já por aí andam há uma boa vintena de
anos, algumas estão publicadas em revistas da especialidade,  e nunca foram,
que eu saiba, postas em causa pelos historiadores encartados da nossa praça.
A História ficaria muito mais rica se o Henrique provasse, de absoluta
certeza, o contrário, ou garantisse dogmaticamente a verdade das suas
citações. Embora, convenhamos, que a História é mais uma ciência de
probabilidades que de certezas. Mas conhece alguma ciência que seja de
certezas?
"Já agora, para quem não saiba, Grade é uma freguesia do Concelho de Arcos
de Valdevez, onde aliás existe uma torre medieval. É uma explicação menos
charmosa e mais prosaica para alguém ser conhecido como o Abreu de Grade,
mas provavelmente mais verdadeira" - Henrique.
Ainda bem que trouxe essa informação à baila. É que exactamente depois do
ponto onde terminei a citação de A. Lopes de Oliveira, está escrito:
"Ficaram a ser designados pelos Senhores da Torre e Casa dos Abreus da
Grade" (ibid.). Como vê, não há contradição, mas coincidências. Espero que
não me acuse de eu não ter transcrito o livro todo... Por essa altura, e não
só, era habitual os nobres, com as suas terras/torres/castelos, darem o seu
nome aos seus domínios. Investigue e, depois, diga qualquer coisa.
"Um rei que tomou Santarém, uma das
principais cidades da altura, apenas com 200 cavaleiros sem nenhum
acompanhamento de povo" - Henrique.
Tem mesmo a certeza que o rei esteve lá, que nome tinha esse rei, que foi ele mesmo que tomou a cidade, que não andava por ali nem um plebeu, que não estava lá nenhum
descendente de Búrios, que eram mesmo apenas 200 cavaleiros, que Santarém
era mesmo Santarém, que era uma das principais cidades da altura? - Como vê,
em História (e não só), pode-se sempre levantar questões/dúvidas. Ainda bem.
Foi assim que nasceu a Filosofia e Sócrates, o autêntico, ficou para a
História. Ou para o mito.
"Por último - diz o Henrique -, nem uma referência a Vilarinho, mas sim a
uma vastíssima área que hoje se divide entre Amares e Terras do Bouro".
Espero que o Henrique reconheça que Vilarinho está nessa "vastíssima área".
E, como já antes referi, "também nunca disse que foram os Búrios (e, muito
menos, a gente de Vilarinho), a realizar sozinhos todas as façanhas que
mencionei". E esta discussão era essencialmente sobre os Búrios
(naturalmente, na altura, já misturados com muitas e outras desvairadas
gentes). Mas olhe que a técnica usada para caçar feras (e, em Valdevez,
leoneses) ainda era utilizada, até bem recentemente, pelas nossas populações
serranas. Hoje, o veneno veio substituí-la.
Vá lá, parece ter aceite as outras minhas citações, nomeadamente sobre os
"privilégios" da gente de Terras de Bouro, sobre a defesa da Portela do
Homem, sobre a participação da gente das Terras de Búrios na Guerra da
Restauração e nas invasões francesas, as referências à Ponte de S. Miguel e
à "Real Fábrica de Vidros de Vilarinho da Furna", aos documentários de José
Hermano Saraiva, etc. O que já considero um "grande consenso".
De resto, fique-se com as suas mitificações, que eu fico-me com as minhas.
Passe bem.
Cumprimentos,
Manuel Antunes

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Sent: Sunday, March 25, 2007 9:43 AM
Subject: RE: [ambio] beneficios do PNPG


Caro Manuel,
Vejamos a primeira das citações:
"{Domingos Maria da Silva, Os Búrios, Terras de Bouro, 1988, pp. 40-43: "Os
Búrios tão firmemente se aguentaram a agricultar as terras bravias das
encostas serranas e a armar ratoeiras às feras com que conviviam de perto,
fojos e covas de lobo, que tão belo efeito estratégico produziram, quando
chegou o momento de as armar em Valdevez, para receber os leoneses na Veiga
da Matança (1139) (..). (...)  É geralmente aceite que D. Afonso Henriques
recomendou aos primeiros habitantes do ermitério de Bouro a aceitação do
hábito e regras de São Bernardo (...). Também consta que por aqui passou, a
pedir a protecção da Senhora da Abadia, quando a caminho de Val-de-Vez, para
dirimir pendência que trazia com seu primo Afonso VII de Leão, se fez
acompanhar, entre os seus homens de armas, pelos habitantes destes montes.
Assim o faz crer a participação que teve nesse recontro o progenitor dos
Abreus da Grade, com a sua intervenção estratégica, inspirada na caça às
feras, as covas de lobo, que tão eficientes se mostraram para atrair o
adversário"."
Este é o tipo de trabalho histórico que serve uma mitificação, é muito
frequente em trabalhos de história local, mas simplesmente não serve para
estabelecer factos históricos.
Falar em covas de lobo nesta altura da história, a propósito de um recontro
que nem terá chegado a existir (terá havido uma escaramuça ou um
aprisionamento de alguns cavaleiros de Afonso VII num contexto em que é
evidentemente absurdo falar de covas de lobo que é um dispositivo militar
desenvolvido para outro tipo de batalhas) parece-me muito duvidoso (há
evidência arqueológica?). Explicar esta introdução estratégica a partir da
convivência com as feras a propósito de uma tribo germânica 300 a 400 anos
depois dos reinos suevos e visigóticos, com uma invasão árabe pelo meio, é
um tipo de historiografia em que só acredita quem quer. A história do
"consta que o Rei passou por aqui" é notável, também o "fez-se acompanhar
pelos habitantes destes montes" (um rei que tomou Santarém, uma das
principais cidades da altura, apenas com 200 cavaleiros sem nenhum
acompanhamento de povo) são coisas engraçadas, até pode ser um bom ponto de
partida para uma investigação, mas não é conclusão que se use assim sem mais
nem menos. Por último, nem uma referência a Vilarinho, mas sim a uma
vastíssima área que hoje se divide entre Amares e Terras do Bouro.
Já a citação, doutro autor: "Ficou conhecido, depois, pelos Abreus da Grade,
por D. Gonçalo ter participado no torneio de Val-de-Vez, na Veiga da
Matança, e preparado o estratagema de cobrir com grades o fosso onde caíram
os inimigos"}" é um divertimento muito típico da historiagrafia do século
XIX e princípio do século XX (o Portugal Antigo e Moderno está cheio de
coisas deste tipo). Já agora, para quem não saiba, Grade é uma freguesia do
Concelho de Arcos de Valdevez, onde aliás existe uma torre medieval. É uma
explicação menos charmosa e mais prosaica para alguém ser conhecido como o
Abreu de Grade, mas provavelmente mais verdadeira.
Foi para se perceber como existe um enorme espaço de especulação entre os
factos históricos claramente estabelecidos e as mitificações locais que pedi
as citações.
Por mim estou esclarecido.
henrique pereira dos santos


publicado por MA às 16:00
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De volta aos Búrios
Da AMBIO
Olá Henrique,
Sobre as citações por si feitas tive o cuidado de referir que "verá que não
há qualquer contradição entre o
que dizem os historiadores encartados do Reino/República e o que eu afirmei.
Há, sim, uma complementaridade".
O que até se compreende porque esses Historiadores não se vão, naturalmente,
ocupar dos feitos dos nossos
"camponeses e pastores"...
Também nunca disse que foram os Búrios (e, muito menos, a gente de
Vilarinho), a realizar sozinhos todas as façanhas que mencionei.
Como tenho dúvidas que confie nas minhas citações, pois já não confiou
noutras por mim feitas (por exemplo, no caso das sentenças de Tribunal)
achei que era melhor remetê-lo para os autores que tratam do assunto. Mas,
já que mas pede, não tenho qualquer problema em citá-las, no mínimo
indispensável.
Assim, quanto a Valdevez, até me limitei a referir que "ajudámos (às ordens
do normando Gonçalo de
Abreu, descendente dos reis de França, vindo para Portugal com o Conde D.
Henrique,  donatário de Brufe, aldeia vizinha de Vilarinho)  D. Afonso
Henriques e os seus homens, contra o Reino de Leão".
{Domingos Maria da Silva, Os Búrios, Terras de Bouro, 1988, pp. 40-43: "Os
Búrios tão firmemente se aguentaram a agricultar as terras bravias das
encostas serranas e a armar ratoeiras às feras com que conviviam de perto,
fojos e covas de lobo, que tão belo efeito estratégico produziram, quando
chegou o momento de as armar em Valdevez, para receber os leoneses na Veiga
da Matança (1139) (..). (...)  É geralmente aceite que D. Afonso Henriques
recomendou aos primeiros habitantes do ermitério de Bouro a aceitação do
hábito e regras de São Bernardo (...). Também consta que por aqui passou, a
pedir a protecção da Senhora da Abadia, quando a caminho de Val-de-Vez, para
dirimir pendência que trazia com seu primo Afonso VII de Leão, se fez
acompanhar, entre os seus homens de armas, pelos habitantes destes montes.
Assim o faz crer a participação que teve nesse recontro o progenitor dos
Abreus da Grade, com a sua intervenção estratégica, inspirada na caça às
feras, as covas de lobo, que tão eficientes se mostraram para atrair o
adversário".
E, ainda, A. Lopes de Oliveira, Terras de Bouro, Edição da Câmara Municipal
de Terras de Bouro, s/d, p. 28: "A origem do seu nome [Brufe] parece vir do
topónimo Berulfi (genitivo germânico) que significa lobo. Foram seus
donatários os Abreus (Gonçalo Mz. de Abreu, normando, descendente dos reis
de França e que veio para Portugal com o Conde D. Henrique). Ficou
conhecido, depois, pelos Abreus da Grade, por D. Gonçalo ter participado no
torneio de Val-de-Vez, na Veiga da Matança, e preparado o estratagema de
cobrir com grades o fosso onde caíram os inimigos"}.
A referência que o Henrique faz ao apoio que o Abade de Bouro, com os seus
homens, deu a D. João I, no episódio da Portela do Homem, que até fica em
terrenos de Vilarinho, só confirma o que eu disse. Nunca afirmei que foi a
gente de Vilarinho a única heroína desse feito. No já referido livro de
Domingos Maria da Silva, pp. 43-44, pode ler-se: "Assim o confirma, com toda
a segurança, a intervenção do Dom Abade de Bouro, capitão-mor dos seus
coutos, quando nas guerras da independência esperou com os seus homens os
castelhanos na fronteira da Portela e lhes infligiu derrota completa. Igual
procedimento teve o que então  era Abade do mosteiro de Bouro, nas guerras
da Restauração e Aclamação, assim como o governador das armas da Portela de
Homem, Vasco de Azevedo Coutinho, fronteiro-mor da mesma praça, que defendeu
abnegadamente com os seus homens". (Cf. tb. D. Luís de Menezes, 3º Conde da
Ericeira, História de Portugal Restaurado, pp. 236-244, e muitos outros).
Estranho que o Henrique desconheça a intervenção que a gente daquela zona
teve na Guerra da Restauração, quando foi em 1640 que se destruíram as
pontes romanas da Albergaria e de S. Miguel, entre outras, por ordem de "D.
Gastão Coutinho, general do Minho, a requerimento do povo, para evitar as
surpresas dos Galegos, durante a guerra da Restauração" (Manuel de Azevedo
Antunes, Vilarinho da Furna - Uma Aldeia Afundada, A Regra do Jogo, Lisboa,
1985, p. 11. Pinho Leal, no Portugal Antigo e Moderno, tb fala do assunto),
destruição essa paga pela gente de Terras de Bouro, quando está em curso, no
PNPG, a elaboração do processo para apresentação da Jeira a Património da
Humanidade, com uma substancial intervenção na Ponte de S. Miguel. Tb falo
dela, com fotografia das ruínas e tudo, no meu livro Vilarinho da Furna -
Memórias do passado e do futuro
, CEPAD/ULHT, Lisboa, 2005, p. 153.
Certamente não foi com os "meninos de coro" do Mosteiro que o(s) D. Abade(s)
de Bouro organizaram a defesa da fronteira, como se pode ver pelas actas das
Inquirições de 1220, de 1258 e de muita outra documentação: "Basta um golpe
de vista pelas Inquirições para se reconhecer a importância que já então se
ligava à defesa da Portela do Homem. Correndo as actas, fica-se, na verdade,
surpreendido com o cuidado com que aquela defesa estava prevista. Pode
dizer-se que, em caso de perigo, toda a população oriental do Bouro acorria
à Portela. Assim, a frase corrente, na maioria das actas de 1220, é: ...
vadunt... custodire castellum et Portellam de Homem in tempore guerra"
(Costa Veiga, "O Julgado do Bouro, a Fronteira da Portela do Homem e o
Castelo de Bouro em Documentos Medievais", in Terras de Bouro - O Homem e a
Serra
, Câmara Municipal de Terras de Bouro, 1992, p. 113).
Mas a nossa gente esteve também com a defesa da Pátria aquando das invasões
francesas. Para aguçar o apetite sobre o tema, refiro só, por enquanto, que
essas invasões, além de provocarem o reforço da fronteira, foram um pretexto
para a destruição da segunda maior Fábrica de Vidros portuguesa, no
princípio do séc. XIX,  a "Real Fábrica de Vidros de Vilarinho da Furna". Se
essa fábrica tivesse continuado, hoje não teríamos um único carvalho na Mata
da Albergaria!
Para quem o desejar, poderei, depois, desenvolver melhor essa história.
Esta obrigação da gente do actual "concelho de  Terras de Bouro e do extinto
concelho de Santa Marta de Bouro, assim como dos antigos Coutos de Souto e
do mosteiro de Santa Maria de Bouro" (Domingos Maria da Silva, A Fronteira
da Portela do Homem e os Privilégios de Terras de Bouro
, Braga, 1984, p. 5)
de  defender a fronteira, sob o comando do Abade do Convento de Bouro, tinha
como contrapartida o "privilégio" de os seus mancebos não participarem no
exército do reino. "Privilégio" esse que perdurou até 1834, altura em que o
Ministro Joaquim António de Aguiar, mais conhecido por "Mata Frades",
extinguiu as Ordens Religiosas, Convento de Bouro incluído. Há muita
documentação sobre isso. Em síntese, do referido livro de Domingos Maria da
Silva, que publica textos da Colecção pombalina, transcrevo, p. 7: "Dizem os
moradores e mais off.es das Camaras do Conc.lho das terras de Bouro e do
Couto de Santa Marta do Bouro e do Couto de Souto que por privilegios m.to
antigos e do tempo do Senhor Rey Dom Dinis, confirmados por todos os mais
Senhores Reys deste Reyno, até ao Senhor Rey Dom João V, foram sempre os
moradores das terras do Bouro isentos não só de poderem ser alistados para
soldados, nem fazerem se estes dentro das ditas terras, mas tambem de
contribuições com cousa alguma de sua fazenda p.a as guerras, nem hirem
servir nellas, ou em aduas, nem com mantimentos; e isto por contrato oneroso
em razão de se obrigarem a defender à sua propria custa a Portella d'Homem,
q. fica na Arraya de Castella, distante quase huma legoa de Galliza e por
onde era mais facil a invasão do inimigo ao tempo de guerra, cujos
Privilegios lhes tem sido sempre mandados observar tanto por sentenças como
por m.tos Alvarás e Provisoens do Conselho de Guerra e Junta dos Tres
Estados (...)".
Quanto à propriedade de 1792,44 ha (sem contar os direitos de usufruto em
cerca de 1000 ha) nas serras Amarela e Gerês, de pessoas de Vilarinho da
Furna (calculados pelo Sistema de Identificação Parcelar 2005-2006,  do
IFADAP-INGA, e confirmados, por SIG, pela excelente equipa do PNPG que
elaborou para a AFURNAo projecto do Plano Zonal, em 2005), nada tem a ver
com as efabulações que o Henrique aqui veio tecer.
O Henrique continua a confundir baldios (terrenos comuns) com terrenos
individuais usados comunitariamente, como é no caso do Monte de Vilarinho,
resultantes de  antigos forais. Por isso é que, para além das sentenças
contra o Estado português (PNPG incluído) temos sentenças de habilitação de
herdeiros e até habilitações notariais resultantes de testamentos. Se não
acreditar em mim, faça favor de telefonar aos seus colegas do PNPG, porque
qualquer um lhe explica isso, inclusive o Sr. Director, pois, como já disse,
fizeram para a AFURNA um excelente projecto, só depois de provarmos os
direitos de propriedade privada sobre os referidos terrenos.
E, ao contrário do que possa pensar, não andamos a tentar "sacar dinheiro
aos contribuintes e à administração central
ou reivindicar pretensos direitos de propriedade e usufruto, como é o caso".
A AFURNA até já recusou um projecto de cerca de trinta mil contos, que nos
foi feito pelo PNPG, na sequência de uma sentença de Tribunal que já referi
na AMBIO, requerendo ao IFADAP para não aprovar tal projecto, tão mal feito
ele estava. E o IFADAP deferiu esse requerimento, não aprovando o referido
projecto. Penso que deve ser caso único em Portugal, para não dizer no
Planeta. Enviei, em tempo oportuno, informação ao ICN, julgo que até
dirigida ao Henrique, na altura Vice-Presidente.
Não tenho qualquer problema em publicar na NET as sentenças sobre essa
propriedade. Mas o ICN tem conhecimento delas,  pelo menos das mais
importantes. Estão também  publicadas e/ou referenciadas no meu livro
Vilarinho da Furna - Memórias do passado e do futuro, juntamente com outras
documentação. Por isso, para não massacrar os outros colegas da AMBIO e
melhor as contextualizar, prefiro enviar-lhe um exemplar desse livro. Leia-o
e, depois, voltamos a conversar sobre isso.
Até porque o meu amigo Miguel Araújo já deve estar danado comigo (e tem
razão) por nunca mais responder às questões que ainda por aí andam
pendentes. Desculpa lá, Miguel, esta deambulação pela história, mas, desta
vez, a culpa também é do Henrique...
Quanto ao Tude de Sousa, apesar de tratar as pessoas de Vilarinho da Furna
por "rudes" e coisas do género (já estamos habituados), em tudo o que se
refere a Vilarinho e algumas outras povoações que eu conheço melhor, é
absolutamente rigoroso. Confesso que aumentou a minha estima e consideração
por este autor quando, recentemente, conheci a sua biografia e outros livros
da sua autoria, que nada têm a ver com o Gerês.
Relativamente a José Hermano Saraiva, pelos documentários que já fez sobre
Vilarinho e Terras de Bouro (o último passou na RTP2 em Janeiro passado,
essencialmente sobre os Búrios e a Jeira, e obtive-o no dia 14 deste mês)
tem sido, quanto é possível saber-se no estado actual da ciência,
absolutamente impecável.
Cumprimentos.
Manuel Antunes

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Sent: Saturday, March 24, 2007 6:19 PM
Subject: RE: [ambio] beneficios do PNPG

Caro Manuel Antunes,
Aqui o paisagista ignorante citou documentos e transcreveu-os. O Manuel
Antunes, que terá lido muito mais que eu, terá com certeza toda a facilidade
em rebater o que eu disse, quer sobre o bafordo de Arcos de Valdevez, quer
sobre a emboscada da Portela do Homem, quer sobre a guerra da restauração.
Portanto, como não tenho nenhuma dúvida em aceitar que digo asneiras (que
aliás foi o que fiz em relação à água do Fastio, sem mesmo me dar ao
trabalho de fazer qualquer confirmação do que diz, fiando-me apenas na sua
palavra), gostaria imenso de saber com que factos, descritos em que
documentos ou concluídos a partir de que estudos, posso aprender mais sobre
o assunto.
É que as perguntas estúpidas geram muitas vezes respostas inteligentes, mas
neste caso não tive resposta nenhuma às minhas questões que admito que
possam ser estúpidas.
A não ser a da posse da terra, mas escuso de explicar o que se passa com o
IMI das propriedades rústicas (como de maneira geral com a fiscalidade da
propriedade rústica) para fundamentar qualquer discussão de propriedade
sobre os terrenos.
Sugiro talvez para acabar todas as dúvidas que no seu blog, ou no site da
afurna transcreva (hoje é fácil com um scaner) integralmente as várias
sentenças dos tribunais, porque assim se acabaria, com certeza, com qualquer
dúvida.
Mas antes disso explique-me de forma clara e linear uma questão que eu não
consigo perceber de todo:
Se os montes eram propriedade dos moradores de Vilarinho (penso que aí
concordamos), se essa propriedade se materializava no direito de usufruto,
se quando alguém saía de Vilarinho perdia esse direito de usufruto, ou
quando alguém se fixava em Vilarinho entrava na sua posse, como é que essa
posse se mantém quando não há moradores? Não é uma questão de direito ou de
tribunais, é mesmo uma questão de concepção sobre o direito de propriedade
das terras comuns (quer seja na versão de baldios, quer seja na versão
propriedade privada de moradores, quer seja na versão de baldios municipais,
etc.). Eu não tenho ideia de que haja um só testamento em que alguém deixe a
sua parte do monte comum a um filho que estivesse fora de Vilarinho, mas se
houver eu gostaria de saber como posso consultar esse documento que teria
para mim muito interesse.
Quanto às áreas protegidas:
Estou de acordo consigo, as áreas protegidas não são necessárias, há muitas
outras maneiras de obter o que se pode obter com as áreas protegidas.
O que é curioso é como em todo o mundo se chegou à conclusão de que uma das
formas mais eficientes de obter o que se obtém com as áreas protegidas (no
essencial, a conservação de um património comum) é mesmo designando áreas
protegidas. E mais, na grande maioria dos casos, com tempo, chega-se mesmo à
conclusão de que a mera conservação desse património comum constitui uma
mais valia económica directa dos territórios onde existem, com reflexos
significativos nas economias locais (o que é óbvio no PNPG, quer no preço
dos terrenos e casas, cujo o diferencial de preço face à envolvente mede o
valor atribuído pelo mercado à possibilidade de ter uma casa numa área
protegida, quer no êxito de um conjunto alargado de iniciativas económicas,
quer ligadas ao turismo, quer ligadas a produtos que incorporam na sua
imagem a expectativa positiva do mercado face à proveniência de uma área
protegida).
Negar isto é uma opção mas suspeito que é uma opção não sustentada em nenhum
estudo.
Posto isto estou inteiramente disponível para admitir que a valorização
económica desse património comum tem enormes dificuldades em Portugal e está
abaixo das expectativas quer das populações locais, quer de todos os outros.
Quanto a sua disponibilidade (suponho que não é uma ameaça) para discutir o
assunto em tribunal, confesso que não faz o meu género: eu estou aqui apenas
a conversar, mais nada.
henrique pereira dos santos
PS Quer Tude de Sousa (que tem escritos interessantíssimos), quer todos os
anteriores em cronologia não são inteiramente fiáveis. Fornecem pistas
interessantes, mas a historiografia da época era muito fantasista (e no caso
de Tude de Sousa, nem sequer de historiografia estaremos a falar). Quanto ao
moderno José Hermano Saraiva poupe-me: umas histórias fantásticas, programas
interessantíssimos, capacidade comunicativa no zénite, mas rigor histórico
pelas ruas da amargura, como bem sabe.


publicado por MA às 15:49
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Ainda os Búrios
Da AMBIO:
Desculpe lá, Henrique, mas a sua ignorância do assunto em questão só é
superável com algumas leituras e não com o que eu aqui lhe possa dizer.
Leia "As Inquirições de 1220", "Vários objectos relativos à Secretaria de
Estado dos Negócios do Reino, da epoca em que foi 1º Ministro o Exm.º Snr.
Marques de Pombal, maço 2.º ", Domingos Maria da Silva, A. Lopes de
Oliveira, Luz Soriano, Tude de Sousa... etc. Veja os documentários de José
Hermano Saraiva. Estude um pouco de História Local e Regional. Deixe-se das
suas especulações gratuitas, próprias de "um ignorante paisagista a falar,
claro" - você o reconhece -  e verá que não há qualquer contradição entre o
que dizem os historiadores encartados do Reino/República e o que eu afirmei.
Há, sim, uma complementaridade.
Mas, para quem considerava que a "Água do Fastio" era colhida na Serra
Amarela, a largos quilómetros da sua nascente, na serra do Gerês, não admira
que não tenha suficientes conhecimentos sobre matérias tão antigas.
Quando estiver melhor informado, avise para continuarmos esta conversa, se
considerar do interesse da AMBIO. Porque ainda temos alguns assuntos
anteriores a esclarecer.
Quanto aos proprietários do Monte de Vilarinho da Furna, é só consultar as
sentenças de Tribunal. Já aqui, na AMBIO, lhe indiquei algumas. O Estado
português, de Salazar, de Marcelo, do SNPRCN, do ICN, do PNPG reconheceram,
no passado, e reconhecem, hoje, essa propriedade particular dos respectivos
proprietários. Por isso, pouco me interessa o seu entendimento sobre o
assunto. Se tiver alguma dúvida substancial sobre esta questão, não teremos
qualquer problema em discutir isso em sede própria, o Tribunal, consigo ou
com quem quer que seja. Mais uma vez, com a honestidade intelectual que
ainda lhe reconheço, não lhe ficava nada mal informar-se devidamente sobre
as matérias que vem para aqui discutir.
A propósito: não quer contribuir para pagarmos o IMI (antiga Contribuição
Autárquica) sobre esses terrenos, incluindo a Barragem de Vilarinho da
Furna? É que já cá tenho o aviso para o respectivo pagamento no próximo mês
de Abril. Como vê, o Estado não se esquece dos proprietários dos terrenos de
Vilarinho, alguns já submersos mas, outros (cerca de 2000 ha), ainda
dispersos pelas serras da Amarela. e do Gerês.
Quanto às ditas "áreas protegidas" (o António Eloy já aqui chamou a atenção
para o facto de tudo o resto parecer desprotegido...) eu só perguntei se
alguém conhecia um único benefício que elas tenham trazido a nível local,
regional ou nacional. E, até agora, nada. Pelo que, fique-se lá com a
demagogia para si, pois, como já lhe disse, "não sei o que isso é, ... deve
ser coisa de político".
Cumprimentos.
Manuel Antunes

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Sent: Saturday, March 24, 2007 12:07 PM
Subject: RE: [ambio] beneficios do PNPG

Diz Manuel Antunes:
"Pois saiba que não falta nada, porque já a pedimos há muitos séculos.
Pedimo-la logo em 1139, ainda antes da existência de Portugal, quando, na
Veiga da Matança, em Valdevez, ajudámos (às ordens do normando Gonçalo de
Abreu, descendente dos reis de França, vindo para Portugal com o Conde D.
Henrique,  donatário de Brufe, aldeia vizinha de Vilarinho)  D. Afonso
Henriques e os seus homens, contra o Reino de Leão."
Diz a história de Portugal de José Mattoso:
" Os dois exércitos encontraram-se perto de de Arcos de Valdevez (digo eu,
se foi ou não na Matança é matéria mais que controversa e parece-me muito
difícil que na Primavera seja possível qualquer batalha com os pesados
cavalos medievais na veiga da Matança sem que ficassem todos atolados, mas
isto é um ignorante paisagista a falar, claro) ...  Os Anais de D. Afonso
Rei de Portugal referem-se ao acontecimento como um bafordo, espécie de
torneio, sem carácter de batalha... a crónica de D. Afonso imperador
rescreve o conflito como preliminar de um combate que não se chegou a
realizar... A batalha evitou-se graças à astúcia e à prudência dos
Portugueses e à não agressividade de Afonso VII..."
Digo eu, que para além deste aspecto, só quem não tenha a mínima noção do
que era a guerra nesta altura é que pode supôr que os camponeses e pastores
de uma perdida aldeia, que como todos os outros estavam terminantemente
proibidos de ter armas, pode invocar o seu papel numa situação como a de
Arcos de Valdevez.
Diz Manuel Antunes:
"E lutámos por essa independência (a de Portugal), ao lado de D. João I e ao
lado de D. João IV."
Diz a história que no caso da guerra de consolidação da dinastia de Aviz, o
Abade do Mosteiro de Santa Maria do Bouro (para quem não sabe todas as
aldeias que conservam o topónimo Bouro são do concelho de Amares, visto que
a sede do Concelho de Terras do Bouro não é a localidade de Terras do Bouro
(que não existe) mas a aldeia de Covas, se não me falha a memória),
retomando, o Abade do Mosteiro de Santa Maria arregimentou seiscentos
vassalos com os quais armou uma emboscada aos galegos na Portela do Homem,
facto pelo qual foi nomeado fronteiro-mor do reino. Mais uma vez só
desconhecendo totalmente o sistema de vassalagem da idade média é que se
poderá reivindicar o papel dos camponeses e pastores de uma aldeia, por
muito que esteja próxima do campo de batalha, neste caso, melhor dizendo, da
emboscada. No que diz respeito à guerra da Restauração, de D. João IV, para
além de escaramuças fronteiriças por toda a raia, ela verdadeiramente
travou-se na Beira Baixa e Alentejo, pelo que a importância de Vilarinho da
Furna nessa guerra só por brincadeira pode ser invocada.
Diz Manuel Antunes:
"Por isso é que, desde o princípio da nacionalidade, os reis de Portugal
concederam às Terras dos Búrios (actual Terras de Bouro) o "privilégio" de
os seus mancebos não participarem no exército do reino, com a condição de
defenderem a fronteira com o país vizinho, nomeadamente na Portela do Homem,
na Portela da Amarela, no Castelo de Bouro, etc. (como vê, até já por lá
temos muitas Portas, muito antes das Portas do PNPG). "Privilégio" esse que
perdurou até 1834."
Digo eu que este parágrafo é uma mera efabulação (basta dizer que até 1570,
com D. Sebastião, não há verdadeiramente um exército nacional) que junta
fantasias e factos para procurar, tal como nos anteriores, suportar
ideologicamente o mito de Vilarinha da Furna com o único objectivo de
justificar moralmente a reivindicação de posse plena de um território cuja
propriedade até poderia ser dos habitantes da Vilarinho da Furna (nem
discuto esta questão jurídica) mas essa entidade já não existe. Não há
habitantes de Vilarinho da Furna, logo não há proprietários da propriedade
comum.
Se as pessoas que de facto seriam proprietários quando de lá foram obrigados
a sair foram ou não correcta e justamente ressarcidos é outra discussão em
que não me meto, mas sempre foi uma regra básica da comunidade que os
proprietários eram os moradores e não outros.
Se perco algum tempo com isto é apenas para chamar a atenção para a
facilidade com que a vitimização em Portugal se transforma numa cash cow,
linha de raciocínio amplamente usada para através da crítica às áreas
protegidas, sacar dinheiro aos contribuintes e à administração central ou
reivindicar pretensos direitos de propriedade e usufruto, como é o caso.
Se o pagamento dos serviços ambientais prestados é uma reivindicação justa e
razoável, a reivindicação abstracta de compensações por prejuízos que
ninguém consegue delimitar é apenas uma esperteza saloia que tem o apoio
tácito dos jornalistas e do movimento ambientalista.
É assim que vemos continuamente um ataque às áreas protegidas com base
nestes pressupostos, mas uma fraqueza enorme na discussão dos instrumentos
fundamentais para a reposição da justiça social, que basicamente estão na
gestão da política de desenvolvimento rural.
E eu recuso-me a ceder à demagogia fácil implícita nessa posição.
henrique pereira dos santos


publicado por MA às 15:36
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Sexta-feira, 23 de Março de 2007
A propósito dos Búrios

 

Da AMBIO:

Olá Inês,
Obrigado pela sua simpatia de já ter lido alguma coisa sobre o meu Povo. Com mais umas leituras, ainda vai ficar a simpatizar com esta gente, que, pelo que diz, até a tem acolhido muito bem na nossa terra. Mas olhe que a sua lista de benefícios não me convence. Mesmo acrescentada do saneamento básico, da lenha para as escolas, da educação ambiental. Nada que não se faça por outros lados: o saneamento, quanto conheço, até no PNPG, por exemplo, no Campo do Gerês, em Covide, em Rio Caldo, no Vilar da Veiga, na Vila do Gerês, no Lindoso, foi feito pelas Câmaras; a lenha para as escolas, por exemplo, em Vilarinho da Furna, muito antes do Parque, eram os próprios miúdos, eu incluído, que a levavam para alimentar o braseiro, de Inverno, e os adultos guarneciam de lenha a casa da Professora (aliás, já no "Regulamento provisório dos serviços de arborisação da serra do Gerez", D.G. nº 295, de 26 de Dezembro de 1888, assinado pelo então Ministro Emmygdio Júlio Navarro, que ainda se mantém em vigor, se determina: Art. 3º Aos povos limithrophes da serra do Gerez continuam a ser garantidas as seguintes regalias: (...) 5º O corte e apanha de lenhas seccas e rasteiras e, na falta d'ellas, o fornecimento das arvores que pelos empregados florestaes forem marcadas para esse fim, e bem assim a concessão gratuita de madeiras aos individuos de comprovada pobreza"); quanto à educação ambiental, não faltam entidades diferentes do PNPG a fazê-la, incluindo a própria AFURNA, que nunca recebeu um cêntimo por isso.
Mas a Inês fica surpreendida com as " «sanções para aqueles que
não respeitavam os costumes e regras estabelecidas..  (de Vilarinho da 
Furna)». De facto a «irreverência» mais conhecida por «liberdade de
escolha», devia ser pouco tolerada em Vilarinho da Furna".
Aí é que a Inês se engana. Pois todas as referidas "sanções" (na minha terra, mais conhecidas por "condenas"), só existiam após um amplo debate na Junta (Assembleia formada pelos representantes de cada família) e depois de aprovadas por votação da "maior parte", o que podia ser alterado uns meses depois, com a entrada de novo Juiz. Junta essa onde as mulheres também tinham assento e direito a voto, tal como os homens. Isto, pelo menos, desde o século V da nossa era, com a chegada dos Búrios à minha terra. Posso-lhe perguntar quando é que a Inês e todas as mulheres portuguesas teve/tiveram direito a voto nas eleições, em Portugal?
Em jeito provocatório, a Inês diz: "Só falta pedirem a independência".
Pois saiba que não falta nada, porque já a pedimos há muitos séculos. Pedimo-la logo em 1139, ainda antes da existência de Portugal, quando, na Veiga da Matança, em Valdevez, ajudámos (às ordens do normando Gonçalo de Abreu, descendente dos reis de França, vindo para Portugal com o Conde D. Henrique,  donatário de Brufe, aldeia vizinha de Vilarinho)  D. Afonso Henriques e os seus homens, contra o Reino de Leão. E lutámos por essa independência (a de Portugal), ao lado de D. João I e ao lado de D. João IV. Por isso é que, desde o princípio da nacionalidade, os reis de Portugal concederam às Terras dos Búrios (actual Terras de Bouro) o "privilégio" de os seus mancebos não participarem no exército do reino, com a condição de defenderem a fronteira com o país vizinho, nomeadamente na Portela do Homem, na Portela da Amarela, no Castelo de Bouro, etc. (como vê, até já por lá temos muitas Portas, muito antes das Portas do PNPG). "Privilégio" esse que perdurou até 1834.
Como lutámos pela liberdade ao lado dos liberais, quando, em 6 de Julho de 1828, deixámos passar, pela Portela do Homem, as tropas de D. Pedro, comandadas pelo General Pizarro, a caminho da Inglaterra (leiam Luz Soriano); ao lado da Maria da Fonte, contra os Cabrais, em 1846, "ameaçando" com 3 canhões (que ainda hoje se encontram na Câmara Municipal de Terras de Bouro), os exércitos governamentais, acantonados em Braga; ao lado de Saldanha, em 1851, que passou uns dias escondido em Covide, aldeia vizinha de Vilarinho, antes de fugir para a Galiza, pela Portela do Homem, de onde regressou triunfante a Lisboa, para iniciar a Regeneração, com Fontes Pereira de Melo; ao lado dos nossos vizinhos, na "guerra do Gerês", contra a usurpação desta Serra, iniciada pelos Serviços Florestais, em 1888 http://afurna.no.sapo.pt/Guerra_Geres.pdf;
ao lado de Humberto Delgado, nas eleições de 1958 (só 2 homens de Vilarinho votaram pelo Américo Tomás e eu ainda me recordo de, miúdo, andar com o meu avô, na aldeia, a colar cartazes do Delgado, quase sem saber o que isso significava); ao lado de dezenas de antifascistas e de milhares de emigrantes, que fugiram pela Portela do Homem a caminho de França, nos anos de 1960-1973; contra o Estado de Salazar e de Caetano, a quem ganhámos processos em Tribunal.
Podemos saber por onde andou a Inês e a sua gente durante todo este tempo?
Vilarinho da Furna sempre foi uma ilha de liberdade e de democracia, no pântano das ditaduras que por cá passaram.
Cumprimentos.
Manuel Antunes
 
----- Original Message -----
From: "Inês Cabral" <minescabral@gmail.com
To: "Manuel Antunes" <mantunes@mail.telepac.pt
Sent: Thursday, March 22, 2007 2:37 PM
Subject: Re: [ambio] beneficios do PNPG
 
Caro Manuel,
Li o seu link e muito me esclareceu a citação «sanções para aqueles que
não respeitavam os costumes e regras estabelecidas..  (de Vilarinho da
Furna)» De facto a «irreverência» mais conhecida por «liberdade de
escolha», devia ser pouco tolerada em Vilarinho da Furna. Deduzo que a
barragem tenha sido um duro golpe para o autoritarismo e o orgulho
búrios. Para já não falar no Parque que se atreve a dar ordens a Búrios.
Isto já faz lembrar os bascos com o seu distinto sangue. Só falta
pedirem a independência .
Assim sendo não espero que os benefícios do PNPG sejam reconhecidos por
estes descendentes de Búrios. Mas alguns saberão melhor que o Parque
trouxe saneamento básico mais cedo que outras aldeias, também trouxe
lenha gratuita para muitas escolas e ainda muita educação ambiental para
quem aprecia a sua terra cheia de maravilhas da natureza que todos
cobiçam mas os locais desdenham  como sinal de atraso económico. O
Parque apenas pode ser censurado por não ter sensibilizado ainda as
populações para as mais valias que o PNPG tem trazido.
Só posso aconselhar a ler a minha  lista de benefícios de uma forma mais
imparcial e assim ver algo mais do que um obstáculo no PNPG.
Cumprimentos,
Inês

Cara Inês,
Após o regresso do Norte, onde fui dar um pequeno apoio à Associação
"Contos do Baú", na exposição sobre os Búrios, uma das tribos germânicas
de que sou originário, e que muito tem a ver com Vilarinho da Furna,
http://www.contosdobau.blogspot.com/
http://afurna.no.sapo.pt/BURIOS_EXPOSICAO.pdf
aqui estou para lhe dar os meus agradecimentos pela listagem de algumas
das actividades que o PNPG tem desenvolvido. O mesmo se diga, "mutatis
mutandis", das outras "Áreas Protegidas".
Só que isso são acções que as autarquias, as associações, as empresas e
outros departamentos do Estado, que estão fora do PNPG (e das "Áreas
Protegidas") estão farto(a)s de fazer, no seu dia a dia. Se esses são os
benefícios do PNPG, não era necessário haver um Parque Nacional.
Cumprimentos.
Manuel Antunes


publicado por MA às 15:54
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